Filmes que inspiram o nosso olhar sobre negócios
(Atenção, atenção! esse texto contém spoiler do filme “Fome de Poder”!)

Há quem tenha fome de alegria, prazer, liberdade, paixão. Outros de sucesso, realização, conquistas, amor. E há, entre muitos de nós, assumidamente ou não, um desejo muito comum: o de ter poder. Esse desejo se reflete naquilo que consumimos, que seguimos, curtimos, na forma como nos vestimos e nas entrelinhas mais sutis do nosso comportamento. Para muitos, a necessidade de controle, a ganância e o desejo de sentir-se poderoso ou poderosa tem a força de uma paixão avassaladora e descontrolada que arde por dentro e se alastra como fogo, queimando inclusive quem está ao lado.

“Fome de Poder” é a tradução em português para “The Founder”, filme de John Lee Hancock que conta a história de ascensão do McDonald’s e como Ray Kroc, o ambicioso vendedor de multimixers para milkshakes, conseguiu expandir o novo jeito de consumir hambúrguer, batata frita e coca-cola, tornando a marca uma das mais valiosas do mundo.

“Persistência. Nada no mundo pode assumir o lugar da persistência”, diz a voz confiante que soa enquanto a agulha toca no LP. De fato, determinação, coragem, força de vontade e confiança são requisitos indispensáveis para quem sabe onde quer chegar — e Ray os tinha de sobra. Mas é preciso considerar outros aspectos quando se trata da busca pelo sucesso, desenvolvimento e gestão de negócios.

Criatividade, inovação, capacidade de se reinventar, visão, vontade de fazer diferente e muita disposição para trabalhar também estão no topo da lista do manual dos empreendedores. E nada disso faltava para os irmãos Dick e Mac, inseparáveis no mundo dos negócios.

Dick, engenhoso e com ideias brilhantes, foi o líder do projeto McDonald’s. Junto com seu irmão, acompanhava de perto toda operação da primeira loja em San Bernardino, na Califórnia. Ele foi capaz de, na década de 40, nos mostrar na prática a importância da empatia, prototipagem e da experimentação quando se quer entregar uma experiência revolucionária, marcante e encantadora para quem consome um serviço ou produto.

Repensar cardápio, reformular a logística do serviço, do consumo, pensando no público que desejavam atrair e reavaliar custos, foram movimentos feitos pelos irmãos para reposicionar o McDonald’s como número um. Mais do que isso: sem computador ou quaisquer recursos gráficos com alta tecnologia, Dick prototipou a cozinha da loja em dimensões reais em uma quadra de tênis. Ali mesmo testou com a equipe por seis horas, dois modelos de operação, até chegar a um terceiro, perfeito, com risco mínimo de falhas. Provou que é possível planejar um negócio com visão sistêmica, se antecipando a possíveis problemas e engajando colaboradores em toda operação sem, necessariamente, grandes recursos estruturais ou monetários. E foi pela inovação e eficiência do negócio que Ray se apaixonou.

Mas onde está o erro nessa história de sucesso?

Dick e Mac, com a criação do Sistema Speedee, transformaram a experiência de alimentação em drive-in americanos, oferecendo a primeira operação de entrega rápida de alimentos do mundo — os fastfoods. E, assim, a forma de consumir hambúrguer, batata frita e coca-cola nunca mais foi a mesma.

Dois gênios, que idealizaram e colocaram em prática uma das maiores marcas do mundo, se tornaram invisíveis por não ouvirem a voz da intuição. Erraram por não reconhecerem com mais audácia o sistema que criaram e o poder do produto que tinham nas mãos e, assim, foram paralisados pelo medo frente à velocidade do sucesso. Se deixaram enganar e não souberam como parar a ganância, a falta de caráter e de ética do rato que não caiu na ratoeira e ainda arrastou o império que haviam construído.

Quem tem fome de poder, pode vir a se alimentar a qualquer custo. Por isso, é preciso ter cuidado. Contrariando a voz segura do LP, eu afirmo: ética, educação e respeito são itens básicos para quem quer atingir o sucesso — claro, depende do que você considera “sucesso”. Persistência nos mantém firmes, mas se deixarmos mortos e feridos no meio do caminho, certamente é hora de dar um passo para trás.

Eu — que não lembro quando foi a última vez que comi um McDonald’s — confesso que cheguei ao final do filme com sentimento de raiva e nojo pela forma como Ray conduziu o negócio e fez a marca se tornar mundialmente reconhecida e fortalecida em todas as culturas.

A fome de poder, levada pelo desejo incontrolável do lucro, fez do McDonald’s uma empresa de grande proporções, mas com pouca consciência do seu impacto social. Uma marca exemplo de posicionamento e de processos, mas com consciência mínima de sustentabilidade de relações e do impacto que isso tem no ambiente de negócios.

Quantos gênios criativos como Dick e Mac são engolidos diariamente pelas mentes maliciosas do mercado? Firmeza, postura e uma boa pitada de ousadia também são aspectos fundamentais para empreendedores que não querem ficar para trás.

É possível crescer e atingir o sucesso com ética, transparência e com a consciência do impacto social que um negócio tem? Natura, Reserva, Mercur, ThoughtWorks e outras empresas mais contemporâneas já podem nos tranquilizar com bons exemplos de que é possível empreender dentro do sistema capitalista que vivemos, mas de forma sustentável, consciente e com um propósito que vai além do lucro.

Essas são as empresas do futuro, que têm mais chances de sobreviver por deixarem um legado transformador no mundo. É nisso que eu acredito. É disso que eu tenho fome e esse é o poder que desejo ver reinando na gestão de um negócio.

Por Laila Palazzo,
co-fundadora e facilitadora da Laborama

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