Eu já escrevi sobre os benefícios da empatia e é incrível como este é um dos temas mais procurados no nosso blog.

De fato, falar sobre empatia, virou quase uma necessidade. Na empresa, em casa, na escola, na relação pessoal. Estamos cada vez mais experienciando e vivenciando este termo nas nossas vidas, de maneira prática. Já mais familiarizados com o conceito e algumas experiências no assunto, talvez a gente pudesse dar um passo além. Você está preparado?

O que estaria do lado de lá da porta da empatia? Com o que eu teria que me deparar? Já não é suficientemente desafiador ter que me colocar no lugar do outro cognitiva ou emocionalmente e, ainda, sem julgamentos e preconceitos? Qual seria o novo “pretinho básico” das boas virtudes a ganhar luz?

Compaixão. Está chegando a hora desta habilidade que de tão nobre parece inacessível a um ser humano comum. Quando iniciei a leitura de “Um Coração sem Medo”, de Thupten Jimpa, me surpreendi com aprendizado de que, simplesmente, uma ação para tentar atenuar a dor do próximo — seja um abraço, um sorriso ou um simples apoio — são, sim, ações compassivas. Não são apenas os feitos magnânimos ou mobilizações de grande vulto que são dignos de serem rotulados de compaixão.

Neste texto de Gustavo Gitti, ele comenta que a empatia sem ação pode, inclusive, ser danosa. Gitti relata o experimento que  Matthieu Ricard, realizou com a psicóloga Tânia Singer durante a pesquisa sobre o fenômeno de burnout — um tipo de exaustão emocional muito comum entre cuidadores que lidam diariamente com o sofrimento, como profissionais da área de saúde. Neste experimento, Matthieu foi monitorado utilizando equipamento de ressonância enquanto sentia empatia por pessoas que viviam situações de muito sofrimento. Ao final do experimento, foi acometido por cansaço, mal-estar, sensação de impotência e um impulso de se distanciar. Efeitos que foram eliminados quando ele direcionou seus sentimentos introduzindo à prática de compaixão. Segundo relatos do texto “sua mente se transformou: a aflição se dissipou e surgiu disposição amorosa para ajudar. Eles descobriram que, de fato, as redes neuronais ativadas pela empatia são bem diferentes das ativadas pela compaixão.”

“Mas o que a compaixão tem a ver com a minha vida prática? Não seria algo para ser praticado apenas da porta da ‘firma’ para fora?”

Compartilhamos aqui alguns ensinamentos que o livro de Thumpten Jimpa nos traz e, ao tomar conhecimento deles, talvez você descubra possibilidades de exercícios da compaixão bem aí, em seu local de trabalho.

O que a ciência acha desse papo?

Durante séculos, desde o iluminismo, a ciência e a filosofia ocidental sugerem que somos seres competitivos e egoístas e que nossa sobrevivência se deve a esse dado. O egoísmo seria a base de todas as nossas ações.

Alguns exemplos dessas linhas:

  • Visão Tecnomecanicista: vê o ser humano como uma máquina;
  • Visão Nativista: defende a soberania do poder divino dos reis hereditariedade.;
  • Visão Behaviorista: experimentos que comprovaram que ações seguidas de recompensas são fortalecidas, enquanto as ações seguidas de punição são enfraquecidas ou extintas;
  • Visão personalista ou Psicologia Humanista: acredita que o indivíduo adulto preconiza seu próprio caminho.

Felizmente, novos experimentos e observações mostram que tais teorias eram visões compartimentadas, limitadoras da grandeza e da complexidade do ser humano, que deve ser visto de uma maneira integrada e holística. Estudos científicos atuais levaram em conta o importante papel que o instinto do cuidado desempenha como motivador das ações humanas. Somos motivados, em grande parte, pela empatia. Quando avaliamos a sensação de outro indivíduo com o olhar de entendimento genuíno das suas emoções acabamos despertando em nós mesmos essas emoções ampliando nosso entendimento sobre ele.

Cientificamente, já está comprovado que a espécie humana só conseguiu sobreviver e evoluir graças à empatia em ação, ou seja, à compaixão, que cultivou um espírito colaborativo entre nossos antepassados pré-históricos. Inúmeros estudos analisaram o comportamento dos primatas — antes mesmo de iniciarmos nossa jornada como bípedes — comprovando que o comportamento empático é algo que remonta à origem da vida: durante 180 milhões de anos, as fêmeas que atendiam as necessidades da prole tiraram do cenário aquelas que eram frias e distantes. Como todos os mamíferos saudáveis, somos sensíveis a necessidades dos nossos descendentes. É através do olhar empático que uma mãe percebe e atua quando seu filho expressa suas necessidades através do sorriso ou do choro.

Mas vamos voltar a falar em compaixão?

A compaixão é um estado de empoderamento da empatia, porque acrescenta a ela o desejo de fazer algo a respeito, de forma a fazer com que determinado sofrimento acabe.

Habilidade

Empatia e compaixão são habilidades naturais e inatas. Mas, como qualquer habilidade, elas precisam ser exercitadas para se desenvolverem. Temos a capacidade de falar, mas se formos criados no meio da selva saberemos apenas emitir grunhidos. Da mesma forma acontece com a compaixão: se não a cultivarmos, ficamos com uma vivência estrita.

Quando agimos com compaixão estamos honrando os outros. Entendemos que possa haver outra experiência diferente da nossa, alguém que pode sofrer com o que não nos causa desconforto, por exemplo. Amamos de fato outro ser quando validamos esse ser de acordo com a sua experiência de mundo.

Desafio da nossa época

Compaixão é a ampliação da mente. Quanto mais ajudamos os outros mais nos alegramos. Quanto menos pensarmos somente em nós mais felizes nos sentimos.

Não há quem discorde do fato de que a compaixão tem algo a ver com o real significado de uma vida boa. Essa é quase uma obviedade que faz parte de uma base comum em que os ensinamentos éticos e humanistas se encontram.

Mas, nossa relação com a palavra compaixão vive um preconceito de imagem. Muitos atribuem a ela um comportamento vinculado à religião ou a confundem apenas com atos de benevolência. Outros acreditam que só pessoas extraordinárias são capazes de atuar com compaixão, como Madre Tereza, Papa etc. Porém, compaixão é quando vemos o sofrimento do outro e desejamos que ele acabe fazendo algo a respeito disso. Imagine o quão poderoso seria utilizar o poder da empatia, e a ação da compaixão que nasce a partir dela, não apenas como uma relação entre indivíduos, mas como uma força coletiva que pode alterar os contornos da paisagem social e política?

O prazer em ajudar

A ciência já consegue medir os efeitos positivos da compaixão no cérebro. Essa ligação — sentir compaixão e perceber o mundo sob uma luz mais positiva — pode explicar por que indivíduos mais compassivos, em geral, tendem a ser mais otimistas também. A bondade afirma um traço fundamental da condição humana, além disso:

  • eleva os níveis de endorfina (hormônio associado à sensação de euforia);
  • nos liberta do confinamento sufocante aos nossos próprios interesses;
  • traz o sentimento de que fazemos parte de algo maior;
  • quanto mais compaixão menos estresse e mais propósito;
  • pode ser a cura para a solidão, que já é considerada uma epidemia em muitos países.

Podemos dizer que quem pratica a compaixão, então, recebe uma recompensa, embora não no sentido egoísta.

Se ainda parece difícil para você, vamos cuidar de falar em um próximo texto sobre um outro ensinamento de Thumpten Jimpa: os inibidores da compaixão e a autocompaixão.

por Stela Nesello
Facilitadora e co-fundadora da Laborama

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