pessoa se olhando em um espelho quebrado

Por: Laila Palazzo

[para ouvir com este texto: Jorge Drexler, Movimiento]

“You are temporary.” Ouvi a frase enquanto assistia este episódio do Greg News. No vídeo, ele traz a importância das narrativas artísticas para a nossa conscientização em relação à morte. E, também, sobre como a cultura está nos ajudando a sobreviver enquanto estamos todos isolados. Parece paradoxal, né? Porém, este é um momento que nos convida a olhar para a vida e a morte com mais clareza e, quem sabe, com mais leveza.

Falar em morte pode dar um arrepio na espinha. Afinal, o assunto ainda é tão tabu quanto falar de dinheiro ou de sexo. E aí, amigos e amigas, fiquem atentos: a vida está fazendo toc-toc na nossa porta, ansiosa para nos contar sobre algumas coisas que nos rondam há tempos, mas que nem sempre enxergamos ou temos a coragem de enfrentá-las.

Baseado não só no Greg News, mas em tantos outros conteúdos que tenho consumido, na minha vivência pessoal e em experiências com clientes da Laborama, resolvi criar o que chamei de “Os Ciclos dos 4 Is: Dos Chamados Desafiantes às Oportunidades Virtuosas“. Essa é uma tentativa de resumir de forma ilustrativa os convites que estamos recebendo neste momento e como eles podem passar de desafiadores para uma grande oportunidade de expansão de consciência. Então, vamos lá.

1. Impermanência

No episódio de Tempos de Transição — um canal de podcast que se dispõe a promover diálogos e reflexões para potencializar transformações —, o escritor, músico e astrólogo Waldemar Falcão olha para a natureza para nos lembrar que tudo na vida é cíclico: a rocha, o fogo, as nuvens, as 4 estações. Já dizia o filósofo Heráclito: “nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio, pois na segunda vez o rio já não é o mesmo, nem tampouco o homem“. Estamos em constante movimento. Tudo muda, o tempo todo. Acontece que, antes de entrarmos para as nossas casas e ficarmos isolados uns dos outros, tínhamos a ideia de que mudar talvez fosse só um convite, algo a se pensar e decidir. Hoje, a vida nos impõe a transformação e nos faz lembrar que tudo é impermanente: nossos hábitos, nossas crenças, o jeito de trabalharmos, de nos relacionarmos, de consumirmos. Mudar não é mais sobre decisão, é uma questão de sobrevivência.

Há alguns dias, fiz uma reunião de diagnóstico com uma cliente. Ela é gestora do departamento de Cultura e Inovação de uma multinacional e me contava sobre as mudanças, adaptações e reflexões que tem experimentado a partir da nova rotina de home-office. Em determinado momento da conversa, compartilhou que não se sente emocionalmente preparada para voltar à rotina de trabalho diário no escritório da empresa. O motivo é que é a primeira vez que consegue acompanhar de perto a rotina das três filhas: o acordar, o vestir, o almoço em família durante a semana, as tarefas e outros tantos hábitos que se tornam mais distantes quando olhamos para o modelo padrão de trabalho que a maioria de nós ainda se encaixava antes da pandemia.

Para muitas empresas, home-office era algo distante, pouco provável de acontecer ou, mesmo, embrionário na sua forma de experimentar esse novo modelo de trabalho. Sabemos que nem todos têm o privilégio de trabalhar de casa e que, ainda assim, muitos dos que têm — como bem disse essa gestora nessa mesma conversa — “não moram em uma casa feliz“. Por isso, fazer home-office se torna ainda mais desafiante. O que antes era algo a ser planejado, estudado e decidido pelas organizações, hoje virou questão de sobrevivência para muitos negócios. Esse novo modelo faz com que gestores e colaboradores repensem sua conexão com o trabalho, com a produtividade, com a família e com seu próprio bem-estar.

Quando tudo isso passar, provavelmente muitos escritórios não voltem a ser como eram. Exercitar um modelo híbrido de trabalho e tornar espaços físicos como grandes centros de experiência de relacionamento é um caminho possível para o futuro pós Covid-19. Essa decisão deve ser baseada não só nas necessidades das empresas, como também nos desejos dos colaboradores. Não se trata de, simplesmente, trocar o espaço físico de trabalho, mas de valorizar novos hábitos e de integrar vida e trabalho de uma vez por todas.

A falta de mudança é sinônimo de morte.

2. Imprevisibilidade

Outro dia, escutei um podcast — sim, eu adoro! — no Jornadas da Calma (uma iniciativa da Veja SP), no qual a jornalista Helena Galante entrevistou Joana Mao, designer estratégica e facilitadora criativa. As duas conversavam sobre planejamento, propósito, liderança e outros temas que tangem o comportamento organizacional, a partir de um olhar para padrões mais conhecidos e novos paradigmas de tomadas de decisão.

Enquanto escutava, recordei do meu tempo de atendimento em agências de comunicação. Lembro de fazer planejamentos estratégicos de campanhas anuais na Incomum. Naquela época, era superorganizado executar as demandas: com tudo no Publi, bastava um cronograma reverso para começar a colocar a mão na massa com todos os envolvidos no processo. Não havia muitos desvios no caminho.

Pois bem. Como disse a Helena, ao falar de estratégia é fácil nos remetermos a um lugar de desafios, tarefas, equipes, entregáveis, prazos e metas. Planejamento virou sinônimo de controle. E não é à toa. Olhar para o futuro e traçar uma rota é uma forma de criar um estado de segurança e confiança no que está por vir. Porém, de uns tempos pra cá, o nosso desafio mudou. Agora, temos que aprender a olhar para caminhos sem, necessariamente, conseguir enxergar o que de fato encontraremos lá na frente. Por isso, ao invés de construir planos rígidos, precisamos exercitar a nossa capacidade de criar cenários e, a partir disso, não mais colocar foco somente em cronogramas e prazos, mas sim desenvolvermos nossa capacidade de lidar com o “não saber”, com a falta de respostas e com a flexibilidade frente às mudanças.

Precisamos sair da postura do controle e assumir mais o papel de aprendiz para lidar com o imprevisível. Autogestão e confiança nas pessoas são dois aspectos fundamentais para virar a chave do comando-controle para a colaboração.

3. Incertezas

Falar do imprevisível passa também por aceitar que a vida é feita de incertezas e que precisamos aprender a lidar com elas. Em 1990, o United States War College criou um relatório no qual apresentava um treinamento de oficiais do exército para o século XXI. Nesse material, lançou o conceito de que, após a Guerra Fria, o mundo seria cada vez mais multilateral e, por tanto, V.U.C.A.: do inglês Volatile, Uncertain, Complex and Ambiguous (volátil, incerto, complexo e ambíguo).

O conceito descreve a dinâmica que passou a reger o mundo desde então e que foi acelerada nos últimos tempos com a ascensão da tecnologia e dos ambientes digitais. O volume, a velocidade e o acesso que temos à informação torna os cenários instáveis e complexos, interferindo diretamente na nossa capacidade de agir.

Para tomar decisões assertivas em cenários incertos, líderes precisam adotar a estratégia de verdadeiramente escutar as pessoas, e o ponto de partida é começar a fazer perguntas. Foi isso que fez a área de Gente e Comunicação de um dos nossos clientes na Laborama.

Após ter colocado todos os funcionários da empresa em home-office, bem no início da pandemia, líderes começaram a identificar a instabilidade emocional de muitos colaboradores. Para entender o que estava acontecendo e criar uma relação de confiança com as pessoas, sugerimos o que chamamos de termômetro da quarentena.

A cada três dias, funcionários recebiam um questionário online, estruturado a partir da comunicação não-violenta, para relatar com quais sentimentos começavam o dia, quais necessidades surgiam no decorrer dele e como terminavam a jornada de trabalho. Havia também um campo para relatar fatos que geravam tais emoções e necessidades que não estavam sendo atendidas. A partir desses diagnósticos, a empresa estabeleceu uma comunicação clara e transparente do diretor com os colaboradores.

Quando o governo local liberou a retomada ao ambiente físico, a organização da jornada de trabalho foi orientada pelas necessidades da empresa e também pelas vozes dos funcionários. O resultado? Pessoas mais tranquilas, seguras, engajadas e comprometidas.

“Quanto antes cada indivíduo abandonar a confiança nos planos e realocar a confiança nas pessoas, mais rápido vamos encontrar conforto no processo de mudança.”

Joana Mao

4. Imperfeições

Brené Brown, professora e pesquisadora da Universidade de Houston, tem inspirado transformações a partir dos seus ensinamentos sobre a coragem de sermos imperfeitos. Isso passa pela capacidade de lidarmos com nossa própria vulnerabilidade, tirando máscaras e aceitando que erros são fundamentais para o desenvolvimento e amadurecimento.

Nas organizações, nunca se falou tanto sobre a cultura do erro como nos últimos tempos. Ao longo da história, empresas mais sólidas orientavam suas ações para acertos e sucessos e, muitas vezes, escondiam os erros embaixo do tapete. Com o surgimento das start-ups, se tornou inspiradora e aceitável a condição de prototipar e testar ideias para aprimorar produtos e serviços a partir das falhas.

Nesse contexto, lembro de frases que escutava na minha infância, quando meus pais diziam que “é errando que se aprende” ou “tem que cair uns tombos para contar boas histórias”. Parece que agora finalmente chegou a hora de líderes e liderados se libertarem de suas capas de super-heróis e se desprenderem um pouco de seus egos, permitindo um olhar mais compassivo para si e para os outros. Imperfeição nunca foi sobre fracasso, vergonha ou incapacidade. Aceitar a vulnerabilidade é um ato de força, coragem e humanidade.


Para entrar numa espiral de transformação que nos leva ao crescimento e abundância, precisamos ressignificar o nosso olhar para a impermanência, imprevisibilidade, incertezas e imperfeições. Fazemos isso através da aceitação. Aceitar nada tem a ver com se acomodar mas sim, com assumir a postura de que não temos o controle sobre aquilo que vem do mundo lá fora. Para mudar cenários, o único passo possível é mudar a nós mesmos. Esse é o único controle que está em nossas mãos.

“Não temos em nossas mãos as soluções para todos os problemas do mundo, mas diante de todos os problemas do mundo, temos as nossas mãos.”

Friedrich Schiller

Inquietação é um dos pilares do nosso trabalho aqui na Laborama: somos curiosos, sedentos por conhecimento e aprendizagem. Prezamos por diálogos e debates profundos que desenvolvam nossa capacidade de transformar, aprimorar ou consolidar a cultura das organizações. Se quiser falar mais sobre esse texto ou saber sobre a nossa forma de pensar, sentir e agir, entra em contato com a gente! Vamos adorar bater um papo contigo! 😉 Até breve!

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4 comentários em “Os 4 Is e o poder da aceitação

  1. Rita Miranda disse:

    Olá Laila!
    Que ótima leitura para um sábado a noite!
    Interessante teu relato sobre o home office, recentemente utilizei justamente essa mesma temática para elaborar uma pesquisa para um trabalho de conclusão.
    Pretendo escrever sobre ele por aqui, tu acabou me inspirando, se tiveres interesse te envio o resultado da pesquisa, foi feita em Pelotas!
    Um abraço!

    1. Laila Palazzo disse:

      Rita querida, tudo bem por aí?
      Que alegria receber teu comentário. Que bom que gostaste do meu texto. Fiquei super feliz em saber que ele te inspirou.
      Com certeza tenho interesse em ver tua pesquisa, vou te mandar um e-mail!
      Um abraço apertado e segue conectada conosco!

  2. Gabrieli Carvalho disse:

    Olá…somente uma observação*depois de uma live da ACI com a Laura e o Gabriel sobre a Sustentabilidade de Pessoas, me transformou para a vida! Muito legal!!! Parabéns Laborana !!! Muito bacana o modo de que abordam vivências e experiências na sustentabilidade de pessoas em várioa níveis ✔️✔️Estou me formando em uma graduação e foi significante a experiência de ouvir a metodologia que vcs passam a energia boa…no futuro da minha profissão conhecer sobre o trabalho de vcs foi super notável e servira de exemplo para mim como pessoas! Experiência maravilhosa! Textos objetivos.✔️👏👏👏 Parabéns mesmo♥️ Sucesso!!

    1. Laila Palazzo disse:

      Gabriele, querida! Que alegria receber essa tua observação!
      Nos toca a alma saber que te inspiramos e ajudamos na tua transformação!
      Conta conosco para o teu desenvolvimento! 🙂
      Um beijo com afeto!

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