E escolas mudam o mundo. Que tipo de escola sua empresa é?

Muitas pessoas veem as empresas como lugares onde se trabalha e se ganha dinheiro. E ponto. Sim, isso é em parte verdade e soa um tanto óbvio. Mas será que é só isso? Se lançarmos um segundo olhar, talvez possamos perceber que as empresas são — consciente ou inconscientemente — locais de formação de cidadãs e cidadãos, espaços de desenvolvimento de pessoas.

Olhar para as empresas apenas como um lugar de ganha-pão era algo normal e inquestionável até certo tempo. Mas nas últimas décadas, a partir do desenvolvimento da nossa sociedade e do processo de evolução da consciência humana, é cada vez maior o número de pessoas que não “querem só comida” e buscam em seus empregos obter realização pessoal e autodesenvolvimento — além de “diversão e arte”, como diziam os Titãs 🙂

Sim, algumas empresas costumam investir em cursos de formação e aprimoramento técnico para capacitar seus colaboradores. Cursos de negociação, ferramentas de gestão de projetos, coaching para alta performance, formação em Design Thinking, entre outras. Opções não faltam e a cada dia surgem novas. E está tudo certo! Empresas devem investir no desenvolvimento técnico de seus times. Mas o papel das organizações na formação das pessoas não deve ser apenas técnico.

Passamos a maior parte de nossos dias dentro das empresas e lá, somos influenciados e nos influenciamos mútua e constantemente. Em nossa convivência diária, de forma intencional ou não, partilhamos ideias, conceitos, paradigmas, visões de mundo e espalhamos sementes que vão encontrar solo fértil em outras mentes e continuar seu ciclo de reprodução e expansão. Ideias que surgem no ambiente de trabalho logo ganham espaço em outros ambientes e rapidamente se consolidam como paradigmas, dogmas ou doutrinas. Atualmente, a organização é o grande palco da realização humana e sua cultura é o cenário que circunda e afeta constantemente todos os seus integrantes. Por isso, pensar sobre como a cultura da empresa afeta o desenvolvimento de seus colaboradores é extremamente importante.

Quando as pessoas se desenvolvem sob influência de uma cultura organizacional bem trabalhada, esse estímulo do ambiente interno — o “campo da vida profissional” — acaba sendo refletido no ambiente externo — o “campo da vida pessoal”. Levamos o que aprendemos dentro de nossos espaços de trabalho para nossas famílias e amigos, para nossas casas e comunidades. Agora, pense no potencial de transformação que tem esse fluxo da “vida na empresa” para a “vida lá fora”. Imagine, por exemplo, colaboradores que trabalham em uma empresa que estimula a abertura ao diálogo, levando para suas comunidades uma capacidade ampliada de realizar conversas agregadoras e significativas.

Como diz Richard Barrett:1 

“Quando as pessoas recebem feedback regular de como estão se relacionando com outras e como podem melhorar, elas tendem a modificar seus valores e comportamentos.”

Modificar nossos valores e comportamentos pode ser um modo de estimular os outros a modificarem os seus também. Dizem que a melhor forma de ensinar é ser o exemplo daquilo que defendemos. Empresas que defendem publicamente os valores em que se baseiam dão um exemplo para a sociedade. Mais que isso, dão visibilidade para questões importantes e, assim, estimulam outras pessoas e organizações a se engajarem em fazer o mesmo. Esse tipo de atitude pode gerar um ciclo virtuoso de transformação do mundo em que vivemos. 

Consciente ou inconscientemente, a cultura da sua empresa ajuda a manter ou a mudar o status quo da nossa sociedade. Os valores vivenciados dentro do escritório são absorvidos e reproduzidos nas ruas, no shopping, no parque… Sim, as Instituições de Estado têm seu papel no desenvolvimento da sociedade, mas não podemos ficar apenas esperando — e às vezes reclamando. A iniciativa privada e as organizações podem ser a grande força transformadora do mundo. Como disse Willis Harman, cofundador da World Business Academy:2

“A organização se tornou a instituição mais poderosa do planeta. A instituição dominante em qualquer sociedade precisa se responsabilizar pelo todo. Mas o mundo dos negócios não tem essa tradição. Esse é o novo papel, não bem compreendido e nem bem aceito. Então as organizações precisam adotar uma tradição que nunca tiveram durante a história inteira do capitalismo: compartilhar a responsabilidade pelo todo. Cada decisão que é tomada, cada ação que é desempenhada, deve ser vista à luz dessa responsabilidade.”

Por isso, acredito que as organizações precisam se dar conta de que são escolas. E talvez sejam o melhor tipo de escola, porque oportunizam um modelo de aprendizagem baseado no caminho da descoberta, no aprender-fazendo, na necessidade de aplicar na prática os conceitos aprendidos.

Que tipo de escola sua empresa é? Do tipo que só se preocupa em ensinar o básico para passar no Enem ou do tipo que se preocupa em estimular a autonomia, a reflexão, o diálogo, a responsabilidade, a transparência?

Esse é um dos porquês pelos quais escolhi trabalhar no desenvolvimento das organizações. Esse é um dos motivos de ter escolhido me juntar à Laborama. Quando decidi fazer minha transição de carreira, não sabia ao certo qual destino buscar, mas sabia que o caminho seria muito influenciado pela Educação. Cheguei a pensar em ir para o meio acadêmico, mas acabei descobrindo outro tipo de escola: a cultura organizacional.

Acredito que são as pessoas, por meio das organizações, que vão construir o mundo em que desejamos viver.

Vamos juntos mudar o mundo! Um CNPJ de cada vez.

Gui Rimoli

Facilitador da Laborama

  1. BARRET, Richard. A organização dirigida por valores. Prefácio. Pág. xiv – Ed. Alta Books
  2. BARRET, Richard. A organização dirigida por valores. Introdução – Pág. xxi – Ed. Alta Books
[DISPLAY_ULTIMATE_SOCIAL_ICONS]

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *