A Antroposofia é para mim uma inspiração, objeto de estudo, trabalho e um alimento para a alma. Quanto mais estudo e coloco em prática os aprendizados, mais faz sentido para mim e para quem eu compartilho, seja em palestras, grupos de estudos, facilitações, na criação dos meus filhos ou nas minhas relações. Uma das áreas de atuação da Antroposofia é a Biografia Humana, um tema que eu adoro ler e compartilhar. 

Essa semana participei de um webinar com a Edna Andrade, aconselhadora biográfica e uma das pioneiras dessa prática no Brasil. Ela falava sobre a Crise da Autenticidade, um convite que chega na vida de todos nós por volta dos 42 anos.

 O que ela trouxe foi tão rico e inspirador que deu vontade de compartilhar um pouco mais desse tema. Pode ser que tenha ressoado em mim tão forte porque estou nessa fase da vida, ou também pelos questionamentos que esta pandemia tem promovido em todos, independentemente da idade.

Como bem disse a Edna, esta crise é pontual, mas carregamos conosco durante toda a vida as perguntas que ela gera, pois estamos em um momento da humanidade chamado de Fase da Alma da Consciência. Ou seja, um convite da vida para atuarmos cada vez mais com verdade e escolhas, refletindo sobre por que fazemos o que fazemos.

Belo convite para nossos tempos, não?

E antes de entrar na bendita crise —… sim, “bendita” —, outro aprendizado que a Antroposofia me proporcionou: crises são um presente, uma manifestação aguda dos nossos processos de desenvolvimento; sempre vêm com o potencial de nos lançar para outro patamar. E sabe qual a chave para isso? Vivê-la com todas as dores que traz e também todas as perguntas que gera; encará-la com coragem, abertura e consciência. Mais um motivo que me estimula a compartilhar por aqui este tema. Quem sabe mais pessoas possam começar a ver beleza nas crises também.

O meio da vida é quando acontece o nosso pico de maturidade, e junto dele, um chamado para perceber quem somos, para nos tornarmos genuínos. É um divisor de águas, provoca um disparo, onde o nosso Pensar, nosso Sentir e nosso Querer (As Três Faculdades da Alma) se intensificam, porém de uma maneira um pouco desconectada — parece que em alguns momentos cada um corre pra um lado. Antes, eles eram mais conectados a conquistas materiais.

Começam a surgir mais fortemente perguntas como: “qual o sentido da vida que levo?”; “a quem sigo e por qual motivo?” e “com a vida consolidada, como sustentar o que agora questiono?”. Produz uma vontade de mudança. A vida afetiva, as relações sociais, as velhas atitudes e comportamentos… Às vezes fica a sensação de ter que se esticar para dar conta de algumas que já não fazem o menor sentido manter. Há um sentimento de desconexão e, ao mesmo tempo, uma ânsia por uma religação — uma religação com mais propósito, sentido, serenidade. 

Mas e como organizar tudo isso?

A Edna sugere que façamos as seguintes perguntas:

“o que tenho que diminuir em mim para que o meu eu-maior cresça?”; “o que está disfuncional em minha vida?”; “o que cresceu demais e precisa tomar um novo espaço, gerar mais equilíbrio?

Aqueles que focaram demais na família, na criação dos filhos, começam a querer investir mais em si. Quem trabalhou demais, começa a ver que precisa dar mais espaço aos hobbies, aos amigos, à família. Quem sempre teve determinado comportamento começa a não se reconhecer mais nele. Enfim, é uma sensação de que não há tempo a perder para ir atrás do que se quer ou sonha. Importante dizer que não é terra arrasada. Não quer dizer que tudo o que se construiu até essa fase não vale mais. Bem pelo contrário!, É uma teste para o que é genuíno em nós ou para reequilibrar o que escolhemos manter. Só fica o que faz sentido. Não é mais possível manter as aparências, ou crenças antigas, ou os tem-que-ser. E o que fica? Ah, o que fica é porque faz parte de ti, te equilibra, é uma escolha consciente. Não é à toa que existe aquela frase: “A vida começa aos 40”.

Depois desse reequilíbrio, dessa reconexão — e ainda mais com vitalidade, energia, sabedoria — é como se fosse um recomeço de vida mesmo. E isso não é uma regra que acontece com todo mundo. Acontece com quem está atento, com quem se abre para a crise, tem coragem de se perguntar “o que precisa diminuir em mim para que o meu eu-maior cresça? “

Agora, posso dizer: todos recebem o convite — um pouco antes ou um pouco depois dos 42, mas todos recebem. Aceitá-lo, sim, é uma escolha de cada um. E aceitar não significa necessariamente mudar, significa saber escolher com consciência.

Agora, pensa aí. Faz uma lista, medita em cima dessa pergunta e dessas respostas. E se estiver na fase dos 40, melhor ainda. A janela do tempo está aberta e pronta para te lançar para um novo patamar, seja reforçando as escolhas já feitas, seja reequilibrando algumas outras.

E para quem não está nessa fase da vida mas sente os mesmos desconfortos — sente que algumas crenças, estilos de vida, relações não fazem mais sentido —, eles podem ser causados por esta crise mundial, que te trazem a oportunidade de observar se o que está desmoronando não era o que estava disfuncional, tomando um espaço maior do que deveria na tua vida.

Que possamos todos aproveitar esta época de São João para acender nossas fogueiras internas, nosso potencial de superação. Lembrando que João era o profeta que realizava o batismo e que dizia: “eu venho para proclamar uma nova vida, para trazer um novo impulso, transforme-se em quem você realmente é”.

Boa sorte pra nós!

E para terminar, uma frase de Rudolf Steiner, o filósofo criador da Antroposofia:

“Quando a consciência fala, todas as outras vozes se calam. A consciência é considerada a voz mais poderosa da vida interior. Ela é a mais sagrada das possessões, inviolável ao mundo externo. Neste lugar tão vulnerável ela nos conecta aos poderes primordiais. Quando a consciência fala, é Deus falando.”

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