Pegamos o bonde andando, a gente confessa. Mas, recentemente a Laila foi picada pelo bichinho do BBB21 e descobriu que, mais do que um programa de entretenimento, o Big Brother espelha muitos dos mecanismos das organizações e da cultura que muitas delas estão trabalhando para transformar. Separamos aqui alguns insights e reflexões sobre esse jogo que acontece na tela da TV e, também, no mundo corporativo. Vem dar uma espiadinha 😉

1. O Big Boss e as regras do jogo 

Boninho e Tiago Leifert não só comandam, como ditam as regras deste jogo que, certamente, vale mais do que R$1,5milhões. Vale o sucesso pós confinamento e, também, a saúde física e mental dos participantes. Alguns comportamentos que são escancaradamente estimulados nas dinâmicas do jogo, também acontecem de forma mais ou menos sutil nas relações organizacionais:

  • Tomada de decisão sob pressão e com as emoções à flor da pele;
  • Estímulo à competição para atingir metas e, também, para que as pessoas se destaque em suas posições (um exemplo clássico é o jogo da discórdia, que acontece toda segunda-feira, onde o apresentador se orgulha ao dizer que gosta mesmo é do fogo no parquinho);
  • Insegurança psicológica e jogo de poder;
  • Busca pelo resultado a qualquer custo;
  • Gerar desconforto e criar o paradigma da escassez para estimular os comportamentos dentro do jogo.

2. A conquista da liderança e o lugar de poder

Quando falamos em líder, qual é a primeira imagem que vem a sua cabeça? Muitas vezes, pensamos na liderança como um lugar de poder e é exatamente essa desconstrução que muitas empresas (e as próprias lideranças) estão tentando fazer. E aí, vem o BBB e reforça novamente esse arquétipo tão nocivo e perigoso em qualquer relação:

  • A liderança é conquistada pela competição, resistência e se torna um lugar de privilégio;
  • Assim que assume o lugar, o(a) líder escolhe seus aliados(as) e é levado(a) para o VIP, o que representa uma série de itens e regalias que, quem não faz parte deste seleto comitê, não ganha;
  • Quarto privado, comida diferenciada, banheiro privativo, festa temática. Qualquer semelhança com “a sala do chefe”, “a cadeira de couro”, o banheiro particular e os benefícios exclusivos para executivos(as) das organizações não é mera coincidência;
  • Além disso, é a liderança quem indica quem fica e quem deve sair do jogo, a partir dos seus critérios. Isso também fala muito sobre as tomadas de decisões de promoções e demissões no ambiente corporativo.

3. Influenciadores(as) informais: para o bem, para o mal e para o trivial

Como em qualquer organização, além das pessoas que assumem no papel e no organograma uma posição de liderança e de poder, existem também aquelas que não sentam na cadeira de chefe, mas que têm tanta influência ou mais no engajamento dos times, na conexão com o trabalho e nas tomadas de decisões. São as chamadas lideranças informais. No BBB existem várias delas, mas duas por aqui merecem destaque: Camilla de Lucas e Viih Tube.

  • Camila é uma excelente mediadora de conflitos. Dá feedbacks claros e objetivos, tem escuta ativa, é provocativa, traz a verdade quando é necessário, acolhe e se preocupa com os outros para além do jogo. Além disso, já se mostrou uma excelente educadora quando se diz respeito também à assuntos sensíveis, delicados e extremamente necessários de serem compreendidos, como a diversidade;
  • Viih se gaba por nunca ter enfrentado um paredão. Como chegar na reta final do jogo sem ter passado por essa provação? Muitas vezes, jogando sujo, fazendo o papel de leva-e-traz e articulando sutilmente as relações para se proteger e escapar da decisão do povo. Ela tem uma facilidade enorme de se conectar com os outros pela emoção. É acolhedora e comunicativa, mas usa essas habilidades em detrimento de si mesma.  Isso faz com que ela tenha uma imagem distorcida dela mesma dentro do jogo e, consequentemente, os demais jogadores também. Conhece alguém no ambiente de trabalho que é assim? 
  • Jogos como esse estimulam a famosa rádio corredor e a formação de subgrupos que se protegem ou competem entre si. No BBB, vai chegar um momento em que essas pessoas vão precisar jogar contra elas mesmas e aí o conflito se estabelece também entre os, até então, aliados. Nas organizações as relações também podem chegar nesse nível e amizades e relações saudáveis, automaticamente se tornam prejudiciais para as pessoas e para os resultados.

4. Moldando comportamentos ou ensinando novos hábitos?

Como falamos no início, não assistimos essa edição desde o começo, mas sabemos que o BBB21 foi palco de diversas discussões dentro e fora da casa, a respeito de temas extremamente importantes para a transformação social que precisamos atravessar. Diversidade, segurança psicológica e machismo são alguns deles. E aqui vai uma reflexão importante em relação à cultura das organizações a respeito das mudanças que estão tentando estabelecer:

  • Como estamos preparando o ambiente para ter conversas significativas sobre comportamentos que precisam ser amadurecidos e transformados?
  • Empresas são escolas: o que estamos estimulando dentro do nosso campo de trabalho? 
  • Quais são os modelos e inspirações que temos para as transformações que queremos fazer? Será que não precisamos reciclar as nossas referências?

Essas perguntas foram pautadas em cima de um episódio onde João Luiz protagonizou um momento de vulnerabilidade e uma fala importantíssima sobre a dor que é dele e é legítima, em relação à uma brincadeira feita pelo Rodolffo sobre o seu cabelo. Além disso, pegamos um recorte de uma discussão extremamente violenta entre Arthur e Fiuk, se não nos enganamos, na mesma edição do jogo da discórdia.

A forma como Tiago Leifert conduziu ambas as situações, ao nosso modo de ver as coisas, foi perigoso, violento e muito nocivo. Racismo não pode ser entretenimento. Violência verbal, também não. Muito menos em um programa que atinge milhares de pessoas e estimula comportamentos que vão desde a moda, ao consumo de marcas (vide o impacto que a festa do McDonald’s teve no faturamento e na imagem da marca), até a autorização daquilo que podemos ser e dizer em qualquer ambiente. Comportamentos assim precisam ser barrados na hora, tanto no BBB quanto no ambiente organizacional. Esse feedback não pode esperar o tempo passar para acontecer. 

Mas, e aí?

Vendo que temos muitas dificuldades de lidar com esses temas, nos perguntamos: assistiríamos ao BBB se as regras do jogo fossem outras? Se ao invés de estimular a competição, todo jogo fosse baseado na colaboração? Se o ganhador não fosse o último a sair, mas sim a maior quantidade de pessoas que conseguissem permanecer na casa e sair vitoriosos juntos? Se ao invés do fogo no parquinho, a Globo abrisse rodas de diálogo para falar de relações mais respeitosas entre as pessoas ou em relação ao ambiente que vivemos? E se conectassem as provas com ações que impactassem positivamente o meio ambiente, a sustentabilidade, o cenário político e fizessem um papel de educação, dando mais destaque inclusive para as histórias pessoais dos(as) participantes e não deixar esses debates só para quem tem tempo e dinheiro para assistir ao pay-per-view?

Será que assistiríamos se o programa fosse assim? A resposta a essa pergunta pode indicar o quanto estamos – ou não  – abertos e prontos para as mudanças que, através do discurso, estamos estimulando. Dê uma espiadinha nos seus pensamentos, reflita sobre isso 😉

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