Como se adaptar às mudanças sem se desconectar da nossa essência?

Ritmos pré-definidos e rituais são muito importantes para mim. Nas manhãs de domingo, por exemplo, tenho uma agenda sagrada: fazer um Facetime com a minha tia Lilian para jogarmos conversa fora. Nossos diálogos passam por falar da família, da semana, do trabalho, dos planos, do que está dando certo, das nossas angústias. O papo sempre chega a seu ápice quando entramos numa seara que diz muito sobre mim e sobre ela: pensarmos juntas, em voz alta, sobre o momento que estamos vivendo. Ela é psiquiatra, lida com indivíduos. Eu, facilitadora. Olho para o conjunto desses CPFs através de um CNPJ. Nossas conversas são um gatilho de aprendizagem e evolução. 

Como de costume, hoje pela manhã falamos por quase duas horas. A diferença é que, desta vez, chegamos ao topo mais cedo e ele durou mais tempo. A pauta filosófica foi sobre adaptabilidade e individualidade.

O que as normalidades, sejam elas velhas ou novas, estão fazendo conosco? Quais impactos têm no coletivo e no individual? Como equilibrar a capacidade e habilidade de se adaptar à novos cenários, respeitando a essência de cada um? Há limites para a flexibilidade?

Com esse nível de perguntas, vocês já podem imaginar onde foi parar a conversa, né? Mais do que tentar achar respostas para cada um dos questionamentos, nos inspiramos para ampliar nossa capacidade de pensar a respeito da complexidade do mundo e do tempo em que vivemos. É hora de aguçar nosso senso crítico, olhar para dentro e para fora. Começar a medir as consequências das respostas que damos diariamente aos estímulos externos e entender para onde elas estão nos levando.

Do que precisamos abrir mão para seguir em frente e no que precisamos nos agarrar com força para evoluir com responsabilidade e consciência?

Adaptabilidade é a nova criatividade. Ouvi isso semana passada, enquanto assistia às aulas do Bug da Perestroika. É fato que, mais do que nunca, precisamos ser resilientes, trabalhar a nossa inteligência emocional e nossa capacidade de adaptação às mudanças do mundo. Em 2017, em um dos primeiros trabalhos que realizamos na Laborama, eu e a Stela demos workshop de comunicação assertiva numa das maiores empresas de planos de saúde do Brasil. Entre os temas que abordamos, estava a empatia. Lembramos da frase de Darwin, que dizia que não são os mais fortes ou mais inteligentes que sobrevivem num processo transformação e sim aquelas pessoas que têm maior capacidade de adaptação aos novos cenários. Nunca antes essa teoria fez tanto sentido quanto agora.

Há tempos falamos sobre um novo mundo que estava chegando ao mercado de trabalho — novas competências, habilidades e mindsets já estavam batendo na nossa porta. Já era  urgente a necessidade de revisar a cultura organizacional e reavaliar a forma como as empresas fazem a gestão de seus recursos, criam processos mais ágeis, que facilitam a operação do dia a dia, investem em relações menos hierárquicas e mais autônomas, menos competitivas e mais colaborativas, e solidificam sua existência em uma missão, visão e propósito, que geram valores sustentáveis não só para o negócio em si, mas para toda cadeia de stakeholders.

Hoje, esse olhar holístico é uma questão de sobrevivência.

O que observamos no nosso trabalho é que, olhar para essa mochila e decidir o que sai e o que fica, gera medo e resistência. Requer uma boa dose de coragem. Quando penso nisso, me conecto com empresas que construíram e consolidaram sua trajetória no mercado, mas que precisam remodelar parte dos seus negócios para se atualizarem. Penso também nos babyboomers ou X Generation, que precisam reencontrar seus espaços nas áreas em que atuam olhando para a tecnologia e a cultura digital como grandes parceiras para seguir em frente, junto com abundância de conhecimentos e experiências. Penso na importância da humildade de quem está chegando agora, já em outro ritmo, mas que também tem muito a aprender com quem já viveu tantas crises e conquistas no ambiente corporativo.

Me conecto com uma conversa que tive ano passado com a Gestora da área Fiscal de uma das empresas que trabalhamos. Na época, ela estava passando por um processo de mentoria, sendo desafiada a mudar alguns hábitos e comportamentos, para desempenhar melhor sua gestão. O que estava sendo proposto era algo sensível e exigente para ela. Em um momento de muita abertura e vulnerabilidade, me confessou: “tenho medo de mudar e deixar de ser eu mesma.”  

O que escutei dessa pessoa foi um medo de perder sua autenticidade, de se desconectar de sua própria identidade, de se encaixar em normas e padrões que ultrapassam seus limites, que violentam sua essência. Havia um pedido claro de fazer um caminho de desenvolvimento, sem abrir mão de seus valores. É preciso coragem para fazer uma confissão como essa. 

Coragem e vulnerabilidade andam juntas” — é o que nos comprova Brené Brown. Segundo pesquisas feitas por ela, a coragem requer quatro habilidades que podem ser aprendidas e medidas: assumir a própria vulnerabilidade como base da evolução; viver de acordo com seus valores; saber confiar e aprender a se erguer. E o caminho para o desenvolvimento dessas habilidades é o autoconhecimento.

É no olhar para dentro que encontramos nossa luz e nossa sombra. Nossa capacidade de voar e nossos limites. É olhando para dentro que despertamos para fora. Só que, fazer esse movimento, que nos embala para transformações significativas, além da coragem, requer dedicação e paciência. É o que reforçou Dulce Ribeiro, no TEDX Unisinos 2020. É preciso dar tempo ao tempo. E convenhamos que, num mundo onde acelerar é a tônica e a velocidade é ditada pelas redes sociais, pausar é ousadia. Mas, dizem os especialistas que não é no treino que nossos músculos crescem, é no repouso. Então, por que insistimos em nos afobar e imprimir uma velocidade insana, quando o que precisamos para seguir em frente com qualidade, muitas vezes é só de um tempo?

A natureza tem muito a nos ensinar sobre ritmos. Na semana passada, num encontro de desenvolvimento com um cliente, eu e o Eduardo Cheffe pedimos que cada gestor(a) fizesse, com massinha de modelar, uma escultura que respondesse a pergunta “que transformação quero ser?” Partindo do pressuposto que o futuro é a consequência das decisões que tomamos hoje, o que estamos construindo? Uma das gestoras modelou algo simples e extremamente significativo: uma gota d’água. Falando sobre essa representação, ela disse:

“a água é um elemento único, que toma diversas formas de acordo com o contexto. Ela se molda aos recipientes os quais é inserida, se solidifica quando exposta às baixas temperaturas, se torna vapor quando está sob pressão. Se adapta às condições do meio, sem nunca deixar de ser água.”

Ser autêntico em um mundo de constante transformação é ser água. É desaprender, aprender e reaprender, constantemente, novos conceitos e padrões, hábitos e comportamentos, habilidades e atitudes; abrir mão daquilo que não nos leva adiante e se manter fiel aos valores que potencializam novas descobertas. Assim, crescemos, amadurecemos e nos adaptamos ao contexto, sem deixar de ser quem somos. 

Do que você precisa abrir mão e o que você precisa reforçar em si para contribuir com um desenvolvimento sustentável para ti e para o mundo? Dê um tempo, sinta a resposta. E, quando ela vier, nos conta. Vamos adorar nos inspirar na tua evolução! 🙂 

Quem escreveu este texto? 🙂 

Laila Palazzo – Cofundadora e facilitadora da Laborama.

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2 comentários em “Adaptabilidade autêntica

  1. Dulce Ribeiro disse:

    Laila, muito bom e pertinente esse texto. Essas conversas inspiradoras de domingo com a tua tia te levam para muito longe.
    Juntar tantas experiências e ideias e ainda fazer essa reflexão é, no mínimo, necessário para ampliar a questão sobre o desenvolvimento humano. Me senti honrada por estar ai junto, trazendo o olhar sobre o tempo do amadurecimento. Adorei a ideia da gota d’agua, linda mesmo. Transformar, se adaptar e não perder a própria natureza. Eu sou fã do ser humano, vibro com tudo que somos capazes de realizar com apenas um empurrãozinho em forma de reconhecimento. Muito obrigada.

    1. Laila Palazzo disse:

      Dulce querida 😉
      Obrigada por essas palavras. É inspirador aprender contigo!
      Estamos juntas nesse fã clube dos seres humanos!

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